6. GERAL 6.3.13

1. GENTE
2. RELIGIO  ELE NO DESCEU DA CRUZ
3. RELIGIO  A PINTORA DOS PAPAS
4. CIDADES  ESSA MOLEZA VAI ACABAR
5. ANTROPOLOGIA  ENTRE OS SELVAGENS
6. ESPORTE  O TIRO SAIU PELA CULATRA
7. CREBRO  A MENTE AO VIVO E EM CORES
8. CREBRO  A PRIMAVERA DA INTELIGNCIA ARTIFICIAL
9. CELEBRIDADES  A OITAVA ARTE
10. EDUCAO  DESVANTAGEM NA LARGADA
11. PERFIL  ELA  FOGO NA ROUPA

1. GENTE
JULIANA LINHARES. Com Dolores Orosco e Mariana Amaro

CHEIO DE SANTOS PROTETORES
Namorar NEYMAR certamente traz muitas alegrias, mas o lado oficial tem l as suas restries. Cada passo do jogador mais badalado do Brasil  e de outras plagas ainda indeterminadas, mas s depois da Copa   planejado por assessores de imagem. Na festa de 21 anos do atacante, BRUNA MARQUEZINE teve de entrar por uma porta e ele, por outra. Dentro da boate, nada de foto, e, na sada, os dois escapuliram pelos fundos. Como Neymar, Bruna, de 17 anos, a insinuante Lurdinha de Salve Jorge, tem a vida pela frente, e no cuidadoso entorno do jogador a ideia  no acentuar muito a relao. " s namoro. Ningum se preocupa se eles andam de mos dadas", diz Eduardo Musa, do marketing do Santos. Ah, tem um monte de gente que se preocupa.

ELE TAMBM FEZ A FESTA
Outro famoso magrinho, topetudo e milionrio comemorou o aniversrio do jeitinho que o diabo gosta. JUSTIN BIEBER completou 19 anos badalando com ms companhias e boas acompanhantes em Londres at o raiar do dia. O grando ao lado dele na foto escondia as trs lindas convidadas com as quais voltou para o hotel. Todo certinho e bonitinho. Bieber anda querendo cultivar uma imagem de bad boy. Apesar do tenebroso inverno londrino, estava sem camisa (e quase sem calas), exibindo os recm-adquiridos gominhos. Para o aniversrio, fez duas novas tatuagens, incluindo o ano do nascimento de sua mame. Ainda um baby, baby, baby...

SEGREDOS DE NOIVA
A vida conjugal da cantora JANET JACKSON, 46, a caula dos nove irmos famosos, sempre foi obscura, e ela manteve a tradio ao anunciar que desde o ano passado j est casada com WISSAM AL MANA, 37, um empresrio do Catar. Aos 18 anos, Janet fugiu com um amigo de infncia e, quatro meses depois, anulou a unio. O segundo casamento, com o msico mexicano Ren Elizondo Jr., s se tornou pblico quando Janet se divorciou, nove anos depois. Com o novo marido ela aparentemente no corre o risco de ter de pagar um divrcio salgado: ele  bilionrio por direito prprio, dono das franquias para as maiores grifes de moda no Golfo Prsico. Mas a dvida mesmo  saber se Janet se converteu para casar com o marido muulmano.

XIII, A CHEFE CHEGOU
Ela  a mulher mais poderosa da internet. E concorre  vaga de a mais odiada. MARISSA MAYER, 37, a nova chefona do Yahoo!, baixou uma ordem que enfureceu a tribo tech: ningum mais da empresa pode trabalhar de casa. A produtividade baixa e aumentam os abusos, dizem os especialistas, mas, para quem  do ramo, o home office parece uma extenso natural do escritrio. Marissa j vem sendo atacada por uma ala feminina desde que voltou ao trabalho apenas duas semanas depois de ter seu filhinho. Agora com 5 meses, o pequeno Macallister  sim, o nome lembra um famoso produto da Apple  passa o dia num berrio na sede do Yahoo!, feito s para ele.

SORRISO QUE VALE MUITO
Foi a primeira balada de GISELE BUNDCHEN depois do nascimento da filha Vivian, h trs meses. No dia da festa, ela chamou um cabeleireiro em casa para retocar as mechas, botou Vivian e o maiorzinho, Benjamin, na cama, e saiu com o marido, Tom Brady. O drinque da noite era o peruano e estonteante pisco sour. Gisele tem direito a relaxar: estreou como estrela de uma nova linha de maquiagem da Chanel; o clareador de dentes que promove no Brasil dobrou as vendas; e a marca de xampu decuplicou. Com o caixa reforado, Brady topou baixar o contrato quinquenal com os Patriots, seu time de futebol americano, para apenas 54 milhes de reais, permitindo outras contrataes. Um exemplo de desprendimento.


2. RELIGIO  ELE NO DESCEU DA CRUZ
Bento XVI se torna papa emrito, em uma renncia como nunca houve na histria da Igreja.
MRIO SABINO, DE ROMA

     Por um momento, na manh do dia 27 de fevereiro de 2013, o universo pareceu girar em torno da Terra, como acreditavam os antigos em sua ignorncia astronmica belamente imortalizada em versos por Dante Alighieri. O verdadeiro ato final da renncia do papa foi to glorioso quanto simples. To inesperado quanto aguardado. Um papa que abandona a Barca de Pedro sob os aplausos de uma multido de 100.000 fiis, os olhos de milhes de telespectadores e o choro de cardeais, bispos e padres  no importa, aqui, se as lgrimas de alguns eram de crocodilo. E que continua papa, agora emrito, seu ttulo oficial. Poderia ter sido da sacada central da baslica, a mesma em que Joseph Ratzinger, surgiu como pontfice, em 19 de abril de 2005, ou da janela do apartamento papal. Mas foi do palco normalmente montado s quartas-feiras, como se aquela fosse uma audincia pblica comum, que ele saudou, foi saudado, abenoou e foi abenoado. Disse Bento XVI: "Houve dias de sol e tambm momentos em que as guas estavam agitadas e o vento soprava em sentido contrrio, como em toda a histria da Igreja. Mas eu sempre soube que naquela barca est o Senhor e  sempre soube que a barca da Igreja no  minha, no  nossa, mas  Sua". O recado, sempre na forma de metfora teolgica, foi dado  Cria que o traiu. Na sequncia, veio a resposta a quem o acusou de "descer da Cruz": "No volto  vida privada, a uma vida de viagens, encontros, recepes, conferncias. Mas permaneo, de maneira diferente, junto ao Senhor Crucificado. No tenho mais o poder de ofcio para o governo da Igreja, mas em servio da orao permaneo, por assim dizer, no recinto de Pedro".
     No dia 28, pouco antes de embarcar de helicptero rumo ao palcio de vero na cidade de Castel Gandolfo, onde permanecer recluso nos prximos dois meses (ou trs, dependendo do ritmo das reformas no convento em que ele morar definitivamente, no Vaticano), diante dos 100 cardeais j presentes em Roma para o conclave, Bento XVI protagonizou outro instante surpreendente na histria milenar do catolicismo. Ainda ocupante do Trono de Pedro, ele afirmou: "Entre vocs, no Colgio Cardinalcio, est tambm o futuro papa, ao qual desde hoje prometo a minha incondicional reverncia e obedincia". Os cardeais ficaram perplexos, visto que um pontfice, mesmo em seus derradeiros minutos,  o chefe supremo da Igreja.
     No  a primeira vez que um papa renuncia, mas jamais houve circunstancia igual a esta. A lio de moral revolucionria a uma Cria corrupta no bolso, no corpo e na alma no deveria passar em branco no prximo pontificado  inclusive porque o papa emrito estar ao lado, como um vigia divino incontornvel, mesmo se enclausurado e em silncio obsequioso. Uma das questes  saber se a renncia de Bento XVI, o nico recurso de um octogenrio debilitado para tentar promover uma limpeza na Igreja, no criar um precedente que resulte em seu contrrio. Ou seja, a dessacralizao dos pontfices que viro a seguir e a cristalizao de um poder ainda maior dos cardeais que os circundam. O raciocnio  que, se um papa pode deixar o cargo como Bento XVI, ele j no estar imune a presses de dentro ou de fora da instituio, da mesma maneira que um alto executivo de uma multinacional.
     Em perodo de sede vacante, a Igreja passa a ser administrada pelo camerlengo, Tarcsio Bertone, e pelo decano dos cardeais, Angelo Sodano. Entregar a administrao do Vaticano, ainda que por uma semana, a Bertone  mais ou menos como emprestar a um Al Capone a chave do cofre de Forte Knox. Ele est por trs do lamaal financeiro que tragou o banco central da Igreja, e tenta sobreviver como secretrio de Estado no prximo pontificado. A revista semanal Panorama revelou em sua ltima edio que Bertone, depois do roubo dos documentos papais que o comprometiam, mandou grampear os telefones de um sem-nmero de prelados, para ter moedas de troca caso peam o seu solidu. Indagado a respeito, o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, confirmou que houve escutas, mas todas legais e em defesa da Igreja. Grampear telefones, contudo, no parece ser um atributo conferido por Deus.
     A ltima deciso de Bento XVI foi dar aos cardeais a possibilidade de adiantar o conclave. No incio desta semana, quando comeam as congregaes gerais, a data ser anunciada. Prev-se que eles se tranquem na Capela Sistina  atualmente em varredura levada a cabo pela Guarda Sua  entre os dias 10 e 12 de maro. Os americanos procuram adiar a data ao mximo, porque, antes, querem estabelecer solues de compromisso que garantam maior transparncia  Cria. Encontram a oposio dos italianos do aparato burocrtico do Vaticano, que usam o argumento de que uma demora prolongada na escolha do pontfice tem o potencial de agravar a crise por que passa a Igreja. Bertone e Sodano, antes adversrios irreconciliveis, aparentemente andam se aproximando. Se for verdade, e no apenas jogo de cena, est em curso o abafamento dos escndalos que originaram a sada de Bento XVI. Na semana passada, ainda, o conclave sofreu uma baixa, depois que se anunciou que o cardeal escocs Keith O'Brien no vir a Roma. O'Brien abusou sexualmente de jovens nos anos 80. Caso nada mude at o conclave, dos 115 eleitores, sero quatro os cardeais acusados de condutas imprprias. Nem o Esprito Santo est livre de ms companhias.


3. RELIGIO  A PINTORA DOS PAPAS
A habilidade com pincis da russa Natalia Tsarkova, adepta do "realismo socialite", conquistou pontfices e cardeais.
ADRIANA DIAS LOPES, DE ROMA

     Atribui-se a ningum menos que Rafael Sanzio o retrato de Jlio II, o grande papa do Renascimento. So de Diego Velzquez, um dos mais geniais artistas espanhis, as feies em leo do severo Inocncio X  que, sculos depois, ganharia uma verso moderna do ingls Francis Bacon. De fato, a Igreja do passado pouco tem a ver com a do presente. A atual retratista dos papas  a russa Natalia Tsarkova, com declarados 45 anos bem tingidos de loiro. Se, sob a Unio Sovitica, seus conterrneos se esmeravam em pintar dentro dos cnones do realismo socialista, Natalia  adepta do estilo "realismo socialite". Tal  o apreo que os espritos pouco santos da Cria tm por ela que a russa nem precisou converter-se ao catolicismo para ter passe praticamente livre nos corredores do Vaticano. Continua a ser fiel ao Patriarca de Moscou, chefe da Igreja Ortodoxa de seu pas.
     De seus pincis saram os retratos oficiais de Joo Paulo II e de Bento XVI, hoje de propriedade dos Museus Vaticanos. O primeiro faz parte do acervo da catedral episcopal de Roma, a Baslica di San Giovanni in Laterano. O segundo, at o momento, encontra-se nas dependncias do Palcio Apostlico, no Vaticano. Elmar Theodor Mader, ex-comandante da Guarda Sua, e o cardeal francs Jean-Louis Tauran tambm foram retratados por ela. "Sou uma mulher de sorte", diz Natalia, com sua voz rouca. A sorte de Natalia comeou em 1995. Recm-formada no Instituto Acadmico de Belas-Artes de Moscou, sua cidade natal, ela decidiu passar trs meses na Itlia, para aprofundar os conhecimentos artsticos  e aprofundou amizades com gente poderosa, como o napolitano de origem alem Franz von Lobstein, Gro-Prior em Roma da Ordem de Malta, organizao ligada  Santa S. No fim de 1999, Von Lobstein, ento com 78 anos, posou para Natalia, e a carreira dela ganhou um sopro divino. No ano seguinte, ele a apresentou a um monsenhor do alto escalo do Vaticano, cujo nome Natalia prefere no revelar. O monsenhor, encantado com as artes da russa, sugeriu-lhe fazer um retrato de Joo Paulo II, em homenagem aos 80 anos do ento papa. Em maro de 2000, ela foi convocada para uma audincia com o pontfice e lhe mostrou uma tela em que Joo Paulo II aparecia ligeiramente encurvado, apoiado ao seu bculo. No bculo,  altura do corao, um detalhe conquistou o papa: a imagem de Nossa Senhora. Marianista ardente, Joo Paulo II bateu a bengala por trs vezes no cho e proclamou: "Viva a arte russa!". O quadro foi comprado pelos Museus Vaticanos e Natalia passou a ser procurada pelos prelados mais influentes de Roma. De acordo com a artista, suas obras custam, em mdia, 100.000 euros. "Cobro mais, mas eles sempre pechincham", resigna-se.
     Bento XVI no posou para Natalia. O Vaticano enviou-lhe vestimentas papais e as medidas do pontfice, para que ela as colocasse sobre um manequim com as mesmas propores. J alguns cardeais por ela retratados fazem questo de ir ao seu apartamento, que lhe serve de ateli, a sete quarteires de distncia da Praa de So Pedro e atulhado de objetos. Entre os cardeais que o frequentaram est Andrea Cordero Lanza di Montezemolo, hoje com 87 anos, retratado cinco anos atrs. Em se tratando de Natalia, no existe aposentadoria para prncipes da Igreja octogenrios.
     Na ltima audincia pblica de Bento XVI, na Praa de So Pedro, a artista sentou-se junto ao grupo de cardeais, bispos e padres. Um privilgio reservado a pouqussimas mulheres. Ela afirma que vai visitar Ratzinger em Castel Gandolfo. O dia e a hora exatos sero combinados com o secretrio particular do papa emrito, Georg Gnswein.  de Gnswein, alis, o prefcio do livro infantil O Mistrio de um Pequeno Lago, escrito por Natalia. O protagonista  Bento XVI, e o cenrio so os jardins do palcio de Castel Gandolfo. O livro foi publicado no ano passado, pela editora do Vaticano. Naturalmente.


4. CIDADES  ESSA MOLEZA VAI ACABAR
A polcia do Rio comea a ocupar o Complexo da Mar  territrio dominado pelo trfico e por agentes corruptos.

     A primeira viso do turista que desembarca no Rio de Janeiro pelo Aeroporto Internacional Tom Jobim  a do Complexo da Mar, imensido de casebres de tijolos e ferragens aparentes que margeia a Linha Vermelha, um dos principais acessos  cidade. Junto com o vizinho Caju, aquela  de longe a mais populosa rea da cidade ainda sob o domnio da bandidagem. So 150.000 moradores vigiados por marginais que circulam por todos os becos com seus rdios de comunicao e fuzis  vista. Trata-se do ltimo enclave do crime situado no cinturo em torno dos locais que sero palco dos megaeventos esportivos sediados no Rio at 2016. Neste domingo, dia 3, o estado comear a retomar tal territrio a partir do Caju, ao que tem o objetivo de fincar ali uma Unidade de Polcia Pacificadora (UPP), nos moldes de outras trinta j instaladas em favelas cariocas. A ocupao, que contar com 1200 policiais e o apoio de tanques da Marinha, foi informada previamente, como as demais, para evitar confrontos sangrentos, ainda que isso leve  fuga dos criminosos com seu arsenal. O plano  reaver todo o complexo at junho  s vsperas da Copa das Confederaes.
     O contedo de investigaes, ao qual VEJA teve acesso, no deixa dvidas sobre como o trfico se apossou do lugar  pagando vultosas propinas a policiais corruptos. Dois esquemas foram desnudados: o primeiro era liderado por um bando da Delegacia de Combate s Drogas, que, j se sabe, recebia um "mensalo"; o outro, por homens do Bope, a tropa de elite do Rio. Nesse ltimo caso, o inqurito traz  luz as cifras. Eram pagos 12.000 reais por dia a um cabo do Bope, que rateava o dinheiro entre seus colegas de planto. Em troca, eles cerravam os olhos ao trfico e  barbrie. Todos os suspeitos j foram afastados de suas funes. O dinheiro vinha de uma nica fonte: o traficante Marcelo Santos das Dores, conhecido como Menor P, integrante do alto escalo do crime.
     A cena acima, captada de um vdeo obtido por VEJA, mostra como seus asseclas empunhavam fuzis no meio da rua, livremente. O descaramento era tanto que, em 2009, Menor P chegou a "alugar" um blindado da PM para avanar sobre os domnios de uma faco rival. O assistencialismo sempre foi um pilar de seu reinado: ele distribua presentes a todos e at promovia peladas com jogadores de grandes times do Rio. Nenhuma celebridade passava pela favela sem lhe render uma visita. Muito menos algum nascido e criado na Mar, como Naldo, o funkeiro do momento. A foto que registra o encontro foi achada em uma busca recente na casa do traficante, que conseguiu escapar. Espera-se que, com a UPP, registros como esse se tornem restos do passado. 
LESLIE LEITO


5. ANTROPOLOGIA  ENTRE OS SELVAGENS
O mais famoso antroplogo vivo, Napoleon Chagnon, relata em livro sua vida entre duas tribos perigosas: a dos ianommis e a de seus colegas cientistas.
FILIPE VILICIC

     Napoleon Chagnon entrou pela primeira vez em uma aldeia ianommi em 28 de novembro de 1964. Tinha 26 anos e esperava ser recebido por um "nobre selvagem", viso da vida primitiva aprendida em sete anos de estudos na Universidade de Michigan. No havia vestgio de vivncia gentil e pacfica na aldeia Bisaasiteri, localizada na selva amaznica venezuelana, prximo  fronteira com o Brasil. Os homens estavam em p de guerra, furiosos com o rapto de sete mulheres na noite anterior. Para espanto do recm-chegado, um fio de muco verde escorria do nariz dos ndios at o peito, resultado da inalao de uma droga alucingena chamada ebene. Cinco das mulheres foram recuperadas naquela mesma manh, numa batalha sangrenta com os homens da aldeia prxima. O choque de realidade daquele primeiro encontro, que Chagnon narra com perceptvel prazer nas primeiras pginas de suas memrias, Noble Savages: My Life among Two Dangerous Tribes  The Yanomam and lhe Anthropologists (Nobres Selvagens: Minha Vida entre Duas Tribos Perigosas  Yanomam e os Antroplogos), lanadas h duas semanas nos Estados Unidos, representou uma lio que iria orientar seu trabalho: ele se tornou ctico a respeito do que os antroplogos costumam ensinar sobre o mundo.
     Aos 74 anos e aposentado desde 1999, Chagnon  o mais famoso antroplogo vivo. Ele  tambm o mais controverso deles. A fama decorre da consistncia, seriedade e repercusso de seu trabalho. Seu primeiro livro, Yanomam, de 1968, vendeu perto de 1 milho de exemplares e  leitura obrigatria em universidades americanas. As controvrsias se devem a duas de suas ideias. A primeira: Chagnon afirma que os ianommis valorizam a violncia e a guerra. Nos primeiros dezessete meses que passou entre os indgenas, ele estimou que 40% dos ianommis j tinham matado outro ndio. As disputas mais frequentes  e essa  a segunda tese de Chagnon  eram por mulheres. O antroplogo declara que a violncia era uma forma de os homens garantirem a transmisso de seus genes. Um assassino, sujeito admirado pela tribo, tem mais filhos que os homens sem sangue nas mos.
     A primeira tese irritou muitos antroplogos por destroar a teoria do "bom selvagem", que Chagnon ironicamente adota como ttulo de seu livro. Em voga desde o Iluminismo, no sculo XVIII, o conceito supe que o homem solto na natureza  pacfico, altrusta e igualitrio. A segunda afirmao contraria outra ideia cara aos intelectuais, a de que a violncia humana decorre da distribuio desigual de riquezas. Os ianommis viviam na idade da pedra, sem mudar seu modo de vida h milhares de anos. No mundo idealizado por antroplogos de gabinete e militantes da causa indgena,  essa gente de vida igualitria deveria viver pacificamente. J Chagnon demonstrou que acontece exatamente o oposto. Os contrariados viraram seus canhes contra o mensageiro.
 por isso que Chagnon d ao relato de suas quase quatro dcadas de trabalho na floresta o subttulo de "Minha vida entre duas tribos perigosas: a de ianommis e a de antroplogos". Conviver com esses ltimos, em especial, foi um tormento maior que os perigos encarados na Amaznia, que incluem ataques de ona e de cobra ameaadores. Sem esquecer os ndios que o encontraram dormindo e decidiram cortar sua cabea a machadadas. S desistiram porque o antroplogo no desgrudava da espingarda. A descrio que Chagnon fez da cultura ianommi, divulgada em livros, artigos, revistas e filmes, era inaceitvel para muitos antroplogos, especialmente aqueles que se recusam a admitir que a violncia faz parte da natureza humana.
     A acusao mais drstica apareceu no livro Darkness In El Dorado (Escurido em Eldorado), do jornalista americano Patrick Tierney, publicado em 2000. Ele acusou Chagnon de ter infectado propositalmente os ianommis com sarampo, matando centenas. Eram alegaes forjadas, hoje desacreditadas. Investigaes feitas por autoridades americanas mostraram que Chagnon, na verdade, ajudou a vacinar os ndios contra uma epidemia de sarampo que j estava em curso, levada para a reserva pela filha de um missionrio. " comum discordar de teorias. Mas demonizar um colega por relatos honestos que faz de seu trabalho em campo  antitico e maldoso", disse a VEJA o etnlogo americano Daniel Everett, que viveu entre indgenas amaznicos. "A inveja deve ter algum papel nas campanhas que denigrem minha imagem, mas penso que em geral  um caso de antroplogos que vem a antropologia mais como forma de fazer poltica do que como uma atividade acadmica", explicou Chagnon a VEJA, na semana passada. Nas universidades,  possvel identificar as tribos acadmicas pela grafia adotada nesse assunto: Yanomam  a usada por Chagnon e seus partidrios. Yanomami ou Yanomama  a preferida por seus inimigos. Tribos perigosas.


6. ESPORTE  O TIRO SAIU PELA CULATRA
A confisso do crime no estdio por um garoto de 17 anos no deve ajudar os doze corintianos presos na Bolvia, e a punio ao time na Libertadores tem tudo para ser mantida.
ALEXANDRE SALVADOR, DE ORURO, E BELA MEGALE

     A confisso de um adolescente de 17 anos, segundo a qual foi ele o autor do disparo de sinalizador que matou Kevin Espada, de 14 anos, no jogo do Corinthians em Oruro, na Bolvia, parecia a soluo perfeita. Seria o passaporte para a liberdade dos doze torcedores presos desde a quarta-feira 20 de fevereiro. Por estar no Brasil e ser menor de idade, inexiste a possibilidade de extradio. A pena a ser cumprida, nesses casos, exclui a cadeia. Rapidamente, a velocidade com que se apresentou o ru confesso levantou suspeitas.
     Logo depois da tragdia, com a priso dos corintianos na Bolvia e a confisso no Brasil, tomou forma um relato repetido com pouqussimas variaes por dezenas de integrantes de torcidas organizadas ouvidos por VEJA. Pode ser a verdade, pode ser um relato orquestrado  as investigaes das prximas semanas  que diro se h injustia contra os presos ou se foi construda uma farsa para solt-los. Pela verso dos corintianos, no momento de comemorar o gol, aos cinco minutos do primeiro tempo, o garoto se atrapalhou com o sinalizador naval, que havia comprado por 20 reais numa rua de comrcio popular em So Paulo, e fez o disparo horizontalmente. Quem estava por perto reclamou da impercia, e ele se afastou de onde estava. No intervalo do jogo, foi naquele setor da arquibancada que a polcia prendeu a dzia de acusados. Ao final da partida, os torcedores j sabiam que algo grave havia acontecido, mas no tinham notcia da morte. 
     O nibus que foi de So Paulo  Bolvia com cerca de cinquenta torcedores entre eles o adolescente, iniciou a viagem de volta mais vazio  ficaram na cadeia na Bolvia alguns dos integrantes da Gavies da Fiel, a torcida organizada da qual o jovem  scio h dois anos, e da Pavilho Nove, referncia  ala onde aconteceu o massacre do Carandiru, em 1992. Na sada de Oruro, o veculo foi apedrejado e perseguido por bolivianos revoltados, relatam os corintianos. Logo depois, o jovem contou a pessoas prximas que havia sido ele o autor do disparo. "Diziam para eu ficar bem, que tudo ia dar certo", afirmou o suposto criminoso, de iniciais H.A.M., a VEJA. Segundo o afinado discurso, eles s souberam da morte de Kevin aps oito horas de viagem. Naquele momento a deciso de revelar a verdade apenas em territrio brasileiro j havia sido tomada. Na chegada a So Paulo, s 9 da noite do sbado, comeou a ser montada a estratgia para libertar os companheiros. Teve incio com a apario do acusado em uma entrevista para a televiso. Incluiu campanhas pelo Facebook ("liberdade aos nossos irmos"). Houve a convocao para uma manifestao em frente ao Consulado da Bolvia em So Paulo, ordenada por telefone por um dos presos no pas andino.
     A operao dar certo? A promotora que cuida do caso na Bolvia, Abigail Saba, pe em perspectiva, e com boa dose de ironia, a declarao do adolescente corintiano. "Ele est na Bolvia? No recebi nenhum testemunho ou declarao oficial. Para mim,  como se esse menor no existisse", disse a VEJA, deixando claro que a revelao no exime os outros torcedores de culpa. "Ser mais um elemento na investigao. Trata-se apenas de um 13 suspeito. Se ele est no Brasil, foi acobertado e retirado do pas com a ajuda de algum." No Brasil, as autoridades tambm vem com reticncia o impacto da confisso. Diz o promotor Thales Cezar de Oliveira, responsvel pelo caso: "Se as autoridades bolivianas entenderem que no h elementos suficientes para iniciar uma investigao contra o menor, tambm no poderei investigar aqui. Equivaleria a uma absolvio".
     A investigao boliviana deve durar pelo menos seis meses, se no houver atrasos. Na semana passada, uma greve de 48 horas fechou o frum de Oruro e adiou a anlise do pedido de liberdade. O motivo da greve: a troca do nome do aeroporto da cidade, de Juan Mendoza, o primeiro aviador da regio, para Juan Evo Morales, em evidente culto  personalidade do presidente, o que irritou os moradores. Na cadeia, cujas condies no so muito diferentes das dos precrios presdios brasileiros, os corintianos passaram a demarcar territrio. Em uma das paredes escreveram: "12 homens inocentes". Numa das portas anotaram: "Pavilho Nove".
     O Corinthians comeou a pagar, merecidamente, pelo crime (veja o artigo de J.R. Guizo, na pg. 114). Na segunda partida do time pela Libertadores, na vitria por 2 a 0 contra o Milionrios, da Colmbia, havia apenas quatro torcedores no Estdio do Pacaembu, autorizados a entrar por uma liminar judicial. A irresponsabilidade das torcidas organizadas, associada  lenincia da diretoria, obrigou a grande maioria de torcedores honestos a trocar o noticirio esportivo pelas pginas policiais. 
COM REPORTAGEM DE LAURA DINIZ E FABRCIO LOBEL


7. CREBRO  A MENTE AO VIVO E EM CORES
Esta imagem do crebro mostra pela primeira vez o fluxo de informaes entre os neurnios com riqueza de detalhes. Ela abre caminho para explicar a origem do pensamento e das emoes.
TATIANA GIANINI

	Assombrar-se sob a imensido do cu noturno, sentir o cheiro de grama e recordar-se de um momento da infncia, distinguir em um rosto o sorriso amigo ou a mscara da indiferena, chorar ao assistir a um filme. Essas sensaes e outras mais complexas, como o amor materno e a f, so fruto de interaes eletroqumicas dentro de uma massa de protena e gordura de 1,4 quilo, o crebro. Nunca os cientistas estiveram to perto de explicar seu funcionamento. Com instrumentos cada vez mais precisos, como os que produziram a imagem ao lado, as pesquisas avanam em ritmo tal que nossa gerao ser a primeira a cruzar a fronteira final da experincia intelectual humana e decifrar o enigma da origem das emoes, do pensamento abstrato e da conscincia.
     O conjunto das ligaes entre os neurnios  chamado de conectoma. Os cientistas j tm um conhecimento avanado da anatomia do crebro, mas no sabem como suas regies se comunicam. Em uma dezena de instituies cientficas ao redor do mundo, foi dada a largada para um projeto ainda mais ambicioso que o do sequenciamento do genoma, concludo em 2003, que identificou todos os genes do DNA humano. Neste ms, o governo americano deve anunciar um investimento bilionrio para incentivar essas pesquisas. Os 100 bilhes de neurnios, cada um ligado aos outros por meio de at 10.000 sinapses, formam uma rede to complexa que, quando for digitalizada, ocupar 1 trilho de gigabytes de memria, o equivalente a mais da metade de todos os dados digitais produzidos em 2011 no mundo. Em comparao, o sequenciamento do DNA cabe em 3 gigabytes. O grande salto da neurocincia agora parece possvel por causa dos avanos na tecnologia para a anlise do crebro  os aparelhos de ressonncia magntica e os microscpios de alta resoluo.
     Conhecer o conectoma  fundamental porque a gentica, sozinha, no basta para definir as caractersticas do crebro de uma pessoa. Os genes no gravam as memrias adquiridas ao longo de uma vida. Um tombo de bicicleta, o primeiro beijo ou o aprendizado de um segundo idioma no deixam sua assinatura na molcula de DNA. Se elas esto estocadas e podem ser recuperadas, o segredo disso se esconde no crebro. "No se sabe ao certo onde essas experincias esto abrigadas, mas uma das teorias  que elas esto inscritas na combinao de impulsos eletroqumicos transmitidos de uma clula cerebral para a outra", diz Olaf Sporns, professor da Universidade de Indiana. Foi ele o responsvel, em 2005, pela criao do termo conectoma. Em uma analogia com o DNA, o que Sporns est sugerindo  que as experincias sensoriais humanas modificam fisicamente, cada uma a sua maneira, cenas pores do conectoma. Dessa forma, aprender a ler essas modificaes no conectoma equivale a descobrir o alfabeto eletroqumico com o qual o crebro organiza e arquiva desde a mais simples reao espontnea (afastar o dedo da chama de uma vela) at as mais sublimes, complexas e abstratas sensaes (o nascimento do primeiro filho, a soluo de um teorema ou o xtase religioso dos santos). Tudo isso estaria gravado nessa teia aparentemente catica de fibras neuronais. Os conectomas nada tm de catico. Sua complexidade extrema obedece a um desenho altamente lgico e decifrvel.
     Em algumas situaes, as conexes neurais so fortalecidas. Em outras, enfraquecidas. Assim o conectoma vai escrevendo e estocando a histria das emoes e dos pensamentos de uma pessoa. Sebastian Seung, pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), mostra em seu livro Connectome as evidncias de que essas transformaes neurais so regidas pelas experincias que vivemos, pelos nossos atos e at pelos nossos pensamentos. Em tese, portanto, o mapeamento da ligao entre os neurnios poder servir como base para o desenvolvimento de exerccios capazes de "moldar" o conectoma de modo a dar ao crebro capacidades nunca antes vislumbradas.
     De imediato, os resultados desses estudos so teis para outras pesquisas neurolgicas em andamento. Esse  o caso dos experimentos conduzidos pelo brasileiro Miguel Nicolelis, que unem a robtica  neurofisiologia. Na semana passada, a equipe de Nicolelis anunciou um avano na interao crebro-mquina: pela primeira vez, conseguiu-se transferir o comportamento condicionado de um rato para outro. Os animais no estavam sequer no mesmo laboratrio. Um estava nos Estados Unidos e o outro, no Brasil. Um implante eletrnico capturou a atividade cerebral do primeiro rato enquanto ele realizava uma tarefa, e a informao foi enviada pela internet e replicada por meio de eletrodos instalados no crebro do outro roedor. Em 70% das vezes, o animal que recebeu os estmulos eltricos imitou o comportamento para o qual no havia sido treinado.
     "O mapeamento da estrutura e das funes do crebro j nos permite localizar com mais exatido as reas relacionadas a doenas psiquitricas", diz o paulistano Felipe Fregni, professor da Escola de Medicina de Harvard e diretor do Laboratrio de Neuromodulaco do Hospital de Reabilitao Spaulding, em Boston.
     A maior parte do que se conhece sobre o funcionamento do crebro provm de estudos de danos causados por leses e tumores. O diagnstico em sade mental mudou muito nos ltimos 100 anos. Ainda  conversando com o paciente que o mdico determina a existncia de stress ps-traumtico, vcio em drogas, ansiedade e depresso, entre outros males. Quando ganharem acesso  gramtica do conectoma, os cientistas podero visualizar a doena mental e trat-la corrigindo as alteraes que ela provoca no crebro. Suspeita-se que o autismo, por exemplo, ocorra por uma anomalia na organizao das ligaes entre os neurnios. Tambm h estudos que associam a esquizofrenia a falhas nas ligaes neurais de longa distncia. Entender como isso ocorre dar incio  era da cura desses males por meio da correo das falhas nas conexes entre os neurnios. E isso ainda neste sculo, talvez at no intervalo de uma gerao. "Com a anlise do conectoma, tambm ser possvel criar exames para o diagnstico objetivo de doenas mentais", diz o radiologista Van Wedeen, da Universidade Harvard, integrante do Projeto Conectoma Humano. Wedeen ajudou a conceber o scanner de ltima gerao usado para fazer as imagens das pginas 80 e 83, formadas a partir do movimento das molculas de gua na substncia branca, parte do crebro onde se concentram os axnios, os prolongamentos dos neurnios.
     Os pesquisadores empenhados em montar o quebra-cabea do crebro dividem-se, grosso modo, em dois grupos: os que estudam clula por clula de tecidos mortos, com a ajuda de microscpios de alta resoluo, e os que tentam encontrar padres no crebro como um todo, analisando imagens produzidas por ressonncia magntica. J  possvel saber exatamente como se organizam e se relacionam grupos de neurnios, mas o objetivo  analisar as clulas uma a uma. "Ainda no h equipamentos que permitam aos cientistas observar a sinapse de um nico neurnio", diz Arthur Toga, da Universidade da Califrnia.
     Mesmo com as limitaes tecnolgicas atuais, o Projeto Conectoma Humano j abriu a porta para um entendimento do crebro nunca sonhado. "O projeto vai resultar em uma grande base de dados, que servir como referncia para os estudos focados no funcionamento dos neurnios", diz o neurocientista Roberto Lent, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Entre as pesquisas que descem ao detalhe de como ocorrem as ligaes entre os neurnios em pequenas pores do crebro, para a partir delas entender o conjunto, destacam-se as do Instituto Max Planck, da Alemanha, e do MIT, nos Estados Unidos. Um dos projetos dos alemes consiste em examinar os neurnios da regio do crebro de um rato responsveis por processar as informaes sensoriais de seus bigodes. Os pesquisadores querem entender como os neurnios conseguem traduzir o estmulo externo em uma percepo de forma, movimento e consistncia. Do tamanho de um gro de areia, esse pedao do crebro do rato foi fatiado em 20.000 lminas, que por sua vez foram escaneadas e reconstrudas em uma imagem em 3D no computador. Para mapearem cada uma das ramificaes neuronais desse pedao de tecido cerebral, os cientistas precisariam trabalhar durante 1 milho de horas. Com o objetivo de acelerar o processo, o instituto vai lanar na prxima semana um jogo on-line para que voluntrios ajudem a traar as conexes dos neurnios envolvidos. "O Brainflight  um simulador de voo: o jogador percorre um tnel e, se encontrar o caminho correto, que  o da sinapse entre os neurnios, ganha pontos. Depois, ns gravamos essa via para construir o mapa das conexes", diz Moritz Helmstaedter, um dos lderes do projeto. Se o simulador identifica os erros do jogador, por que no dar a ele a tarefa de mapear as redes neurais? Porque falta ao computador a capacidade de tomar decises sutis, assim como um carro de Frmula 1 precisa de um piloto para ganhar uma corrida. No MIT, o microscpio desenvolvido pelo Max Planck  usado para decifrar o que ocorre nos neurnios da retina. O primeiro passo  reconstruir as ramificaes dessas clulas tambm por meio de um jogo na internet. No futuro, a equipe do MIT far um segundo game para identificar as sinapses entre os neurnios.
     Embora a ideia de mapear 100% do crebro clula por clula parea hoje inexequvel, muitas aplicaes desses estudos estaro disponveis antes disso. A melhor compreenso das doenas neurolgicas  o benefcio mais bvio. As pesquisas tambm serviro para confirmar a teoria, bastante aceita mas nunca submetida aos rigores do mtodo cientfico, de que as funes do crebro residem no em reas especficas do crebro mas nas conexes entre os neurnios, mesmo os mais distantes. A longo prazo, a compreenso completa das ligaes e da lgica de funcionamento do conectoma ser o elemento que faltava para descrever de maneira cientfica conceitos etreos como  o caso da mente e at da alma. Quando isso acontecer, cessar o encantamento sobrenatural dos seres humanos com os grandes mistrios da existncia e a vida ficar mais chata? Certamente, no. Ao cruzar a fronteira final de sua trajetria intelectual, a humanidade abrir as portas de um universo ainda mais grandioso e misterioso. Por mais que seja conhecido e mapeado, o crebro humano nunca deixar de indagar e se encantar.

COMO AS RUAS DE UMA METRPOLE
O Projeto Conectoma Humano, liderado por pesquisadores americanos, utiliza o que h de mais avanado em imagens do crebro para identificar o caminho provvel da comunicao entre os neurnios
 A pesquisa  feita com a reconstruo tridimensional da posio das fibras a partir da movimentao das molculas de gua, captada com aparelhos de ressonncia magntica.
 Essa movimentao da gua no tecido cerebral indica a direo das fibras, que so identificadas por um padro de cores na representao feita em computador chamada de tratografia.
 Cada uma das fibras coloridas rene milhares de axnios, os prolongamentos dos neurnios.

O GAME DOS NEURNIOS
O projeto EyeWire, do MIT, pretende mapear a interao das clulas nervosas da retina, com o objetivo de entender melhor como a viso funciona
1. Dentro da retina, escondida na parte posterior do olho, h uma densa rede de neurnios interconectados.
2. Um pedao de tecido nervoso menor do que um gro de areia foi retirado da retina e reproduzido em computador em imagens 3D.
3. Para traar as ramificaes neurais, foi criado um jogo on-line (www.eywire.org) que consiste em pintar pedaos das clulas. Um computador no conseguiria fazer o trabalho com o mesmo ndice de acerto de um ser humano.
4. Ao desvendar o emaranhado de ramificaes de cada clula (ao lado, uma delas), ser possvel compreender como elas interagem para captar e enviar para o crebro os estmulos visuais.

UM GNIO INDECIFRVEL
Morto em 1955, aos 76 anos, Albert Einstein teve os olhos e o crebro extrados pelo mdico Thomas Harvey. Dos olhos nunca mais se ouviu falar, mas o crebro foi fotografado de todos os ngulos por Harvey com uma cmera Exakta de 35 milmetros e depois fatiado em 240 pedaos. Ele fez tambm 560 lminas microscpicas. Distribuiu aleatoriamente o material a especialistas em todo o mundo, na esperana de que explicassem a mente mais brilhante do sculo XX. A mais recente anlise, realizada pela antroploga Dean Falk, da Universidade Estadual da Flrida, e divulgada em novembro do ano passado, baseou-se em fotografias feitas por Harvey que estavam desaparecidas. Falk foi a mais enftica pesquisadora a relacionar as habilidades intelectuais de Einstein com certas caractersticas fsicas neuronais. Comparados com fotografias de outras dezenas de crebros, o lobo parietal (responsvel pela noo de espao e pelo raciocnio matemtico) e o crtex pr-frontal (sede do pensamento abstrato) de Einstein eram bem maiores. Mesmo assim, Falk  reticente quanto  existncia de uma relao direta entre essas diferenas cerebrais e a genialidade: "Einstein tinha um crebro extraordinrio, mas os estmulos intelectuais ao longo da vida tambm foram determinantes.

DA LINGUAGEM AO CONECTOMA
As principais descobertas da neurocincia moderna

NEUROLINGUSTICA
O mdico francs Paul Broca (1824-1880) descobriu que a rea do crebro responsvel pela fala fica no hemisfrio esquerdo. O alemo Carl Wernicke (1848-1905) desvendou o efeito que leses numa regio  frente do giro temporal superior tm na compreenso das informaes da fala

DISTRIBUIO DE FUNES
O neurofisiologista ingls Charles Sherrington (1857-1952) estudou a ligao entre o crebro e a medula espinhal. A partir disso, descobriu a natureza distributiva do crebro e a sua capacidade de fazer o corpo inteiro funcionar simultaneamente 

CONSCINCIA
O neurocientista portugus Antnio Damsio estudou o papel do lobo frontal na tomada de decises. O bilogo molecular ingls Francis Crick (1916-2004), um dos descobridores da estrutura do DNA, teorizou que apenas uma parte dos neurnios do crebro seria responsvel pela conscincia e que talvez ela no seja inata 

MEMRIA
O fisiologista americano Eric Kandel elucidou os sistemas qumicos e genticos da memria de longo prazo

PLASTICIDADE
O americano Michael M. Merzenich foi pioneiro na pesquisa da plasticidade, ao identificar que, em algumas situaes, uma regio do crebro pode assumir as funes antes desempenhadas por outra rea

RESSONNCIA
O japons Seiji Ogawa aplicou a tecnologia da ressonncia nuclear magntica funcional para visualizar como as regies do crebro so ativadas por estmulos externos e internos

CONECTOMA
Em 1986, um grupo de pesquisadores liderado pelo americano John White concluiu o mapeamento do sistema nervoso de um verme, o C. elegans. Em 2005, o neurocientista alemo Olaf Sporns foi o primeiro a usar o termo conectoma para se referir ao mapa das conexes neurais no crebro 

Fonte: Mauro Muszkal, neurologista e professor da Unifesp


8. CREBRO  A PRIMAVERA DA INTELIGNCIA ARTIFICIAL
Depois de um longo perodo, conhecido como inverno da IA, em que os cientistas quase abandonaram a busca, volta a ganhar impulso o esforo para criar uma mquina que simule por completo a mente humana.
FILIPE VILICIC E VICTOR CAPUTO

     Ser possvel construir uma mquina com a capacidade de raciocnio do crebro humano? Os pioneiros da cincia da computao, nos anos 50, estavam convencidos de que sim. John McCarthy, o cientista americano a quem devemos a expresso inteligncia artificial, a IA, ps a questo nos seguintes termos: "A inteligncia humana pode ser to precisamente descrita que  possvel construir uma mquina que a simule". As tentativas de recriar eletronicamente a interao dos neurnios responsveis pela inteligncia humana prosseguiram at os anos 80, sem sucesso. Faltava conhecer melhor o crebro antes de tentar replic-lo. A dificuldade levou os pesquisadores a uma mudana de foco. Teve incio o perodo lembrado como "inverno da IA". Os projetos para reproduzir a complexa arquitetura do crebro praticamente entraram em hibernao. Avanos recentes nos estudos que visam a mapear o crebro, combinados com o progresso na capacidade de processamento de computadores, voltaram a mudar a perspectiva. Podemos dizer que se chegou  primavera da inteligncia artificial. Um marco desse recomeo  o incio, neste ms, do projeto Human Brain (Crebro Humano), cujo objetivo  replicar as funes biolgicas do crebro.
     Com um financiamento de 1,6 bilho de dlares fornecido pela Unio Europeia, o projeto, com sede na Sua, envolve 250 cientistas em 150 centros de pesquisa de todo o mundo. O supercomputador que imitar o crebro, o Human Brain,  capaz de executar tarefas, como complexos clculos matemticos, 10.000 vezes mais rpido que o crebro humano. O desafio diante do projeto  colossal: o crebro contm aproximadamente 100 bilhes de neurnios conectados uns aos outros. A isso se somam diferentes tipos de neurotransmissores cujos efeitos podem depender da forma como interagem no sistema, criando camadas de complexidade que no so inteiramente compreendidas. Ao recriar eletronicamente as regras gerais do funcionamento cerebral, o supercomputador poder avanar no estudo de doenas neurolgicas, como Alzheimer e Parkinson. Os dados obtidos ajudam tambm a criar sistemas e programas de robtica que imitem uma das mais brilhantes criaes da natureza, a mente humana.
     A biologia e a medicina esto mais prximas de compreender como o corpo e a mente funcionam. O mecanismo das emoes  um exemplo. Descobriu-se que um dos raros hormnios produzidos diretamente no crebro, a oxitocina, regula em homens e mulheres o vnculo afetivo, a autoconfiana e a sensao de relaxamento. Tanto a falta quanto o excesso de oxitocina alteram o comportamento a ponto de afetar at a afeio de uma me por seu filho. Se os efeitos desse tipo de hormnio puderem ser reproduzidos em computador, talvez seja possvel criar uma mquina dotada de sentimentos. Disse a VEJA o engenheiro Stuart Russell, autor de Artificial Intelligence: A Modern Approach (Inteligncia Artificial: uma Abordagem Moderna): "Se um dia for esclarecido o que h de fato por trs da criatividade, da aprendizagem e das emoes, ser palpvel fabricar um ciborgue como o que vemos nos filmes. Por enquanto, nossa tarefa  entender como estudos de inteligncia artificial podem nos ajudar a desvendar esses enigmas da mente".
     At os anos 80, o objetivo maior dos cientistas era construir um andride que imitasse o homem por completo. Ciborgues ainda eram precrios e inteis. Foi o que deu incio ao perodo conhecido como "inverno da IA". Governos e instituies desistiram de investir na rea, abandonada quase que por completo. Um alento surgiu em 1997: um programa de computador, o Deep Blue, tornou-se a primeira mquina com inteligncia artificial a derrotar um campeo de xadrez, o russo Garry Kasparov. O Deep Blue inaugurou um novo conceito de IA. Limitado a um objetivo  superar um grande mestre no xadrez , era incapaz de escrever poesias ou conversar sobre o sentido do amor. Cientistas ento puseram em foco o desenvolvimento de mquinas com um raciocnio guiado por cdigos de programao, que as deixam diferentes de como  formatada a mente humana. "Estamos cercados desse tipo de IA. So softwares, carros com autonomia e sistemas de buscas, como o Google", disse a VEJA a engenheira Manuela Veloso, presidente da Associao pelo Avano da Inteligncia Artificial. H dois anos, o Watson, verso atualizada do Deep Blue, mostrou-se invencvel em um programa de perguntas e respostas na televiso americana. Com um software que busca respostas em 200 milhes de pginas de livros, alcanou o triplo da pontuao obtida pelo campeo humano. Esses sucessos motivaram o aumento de verbas para pesquisas e estimularam estudos mais ambiciosos. Se houve o inverno, agora  a "primavera da IA".
     Cinco anos atrs, um grupo de cientistas sediado na Sua reproduziu em um computador o comportamento de 10.000 neurnios.  apenas uma frao do que existe em um crebro, mas o modelo foi a coluna neocortical, emaranhado de clulas do tamanho da cabea de um alfinete existente no crebro de mamferos e envolvido em processos que levam ao raciocnio abstrato e  criatividade. No ano passado, um programa da IBM foi alm, ao replicar na tela de computador 100 trilhes de sinapses neurais. Podem ser os primeiros passos para um dia fabricar-se algo como David, o andride filosfico do filme Prometheus, do diretor Ridley Scott. Em um dos dilogos inspirados que ele protagoniza, um humano pergunta: "David, o que te faz sentir triste?". O andride responde: "Guerra, pobreza, crueldade, violncia desnecessria. Eu entendo as emoes humanas". 

A DIGITALIZAO DO CREBRO
Depois de quase ter sido abandonado, o campo de estudos sobre a inteligncia artificial teve um alento com o trabalho de um grupo de 250 pesquisadores que construiro o primeiro supercomputador a imitar o crebro, o Human Brain, que, ao custo de 1,6 bilho de dlares, dever entrar em operao dentro de dez anos.
 Para conseguir replicar todas as funes do crebro, o Human Brain ter uma capacidade equivalente a 37 vezes a do supercomputador mais poderoso existente hoje 
 Isso significa que a mquina ter 1 exaflop de processamento  ou seja, ser capaz de realizar 1 quintilho de clculos por segundo, o equivalente  capacidade combinada de 25 milhes de computadores pessoais
  o mnimo necessrio para reproduzir os complexos processos neuronais humanos que controlam os movimentos do corpo e as atividades cerebrais superiores exigidas na produo dos pensamento

COM REPORTAGEM DE HENRIQUE CARNEIRO


9. CELEBRIDADES  A OITAVA ARTE
Na noite do Oscar, o cinema  quase um coadjuvante. Quem merece um prmio so as stylists, os cabeleireiros e as joalherias que emprestam seus diamantes s atrizes.
MARIANA AMARO

     Por uma noite, elas levam a arte da interpretao para o mundo real  se  que pode ser chamado assim  e se tornam quase gueixas. So vestidas, enfeitadas, maquiadas e penteadas unicamente para ser globalmente admiradas e dar pequenos e estudados passos ao longo de um tapete vermelho. Os vestidos e saltos quase no permitem que andem, tamanha a magnificncia de volumes e alturas. As joias, que podem passar de 4 milhes de dlares per capita, deslizam pelas peles perfeitas  e alugadas para as grandes joalherias, segundo um segredo que todo mundo conhece em Hollywood. Para cada atriz famosa que passa pelo desfile que antecede o Oscar, ao menos cinco pessoas so encarregadas de zelar pelo batom, pelos copinhos de gua que ela vai beber, pela perfeio do caimento da roupa e, claro, por qualquer incidente muito terrvel: mesmo que seja trocar um vestido de ltima hora, como aconteceu com Anne Hathaway, premiada como melhor atriz coadjuvante por Les Misrables.
     A estatuazinha dourada  importante, mas os vestidos... No existe vitrine global para as grandes grifes de moda maior do que a do Oscar. O importante  divulgar o nome, no vender as impossivelmente caras criaes de alta-costura usadas pelas atrizes. Qual mulher no sabe, a esta altura, que Jennifer Lawrence tropeou num Dior a caminho de receber o Oscar de melhor atriz? Foi de verdade ou simulado? O fato  que Jennifer, premiada por O Lado Bom da Vida, faz campanha publicitria para a Dior e provavelmente nunca houve publicidade melhor do que o ar dramtico que fez, envolta numa obra-prima que simula uma corola de flor em brocado de seda recheado de tule para criar movimentos de onda. A cauda do vestido j havia sido encurtada em 12 centmetros para se adaptar melhor ao porte de Jennifer, mas a emoo de levar o Oscar aos 22 anos foi maior. Ou talvez ela tivesse tomado alguma coisa para os nervos. "Pensei numa palavra que comea com efe", provocou depois a finda e desbocada atriz sobre o que sentiu na hora. O detalhe cnico que deu o toque final ao tombo foi o colar de diamantes num total de 73 quilates saltitando sobre os ombros.  da Chopard, a mesma joalheria que ela tem usado sistematicamente. Cach sussurrado por uma apario anterior: 100.000 dlares.
     Mesmo sem pagamento, as atrizes tambm ganham muito com a imagem de perfeio que projetam. Dois dias antes do Oscar, a joalheria Harry Winston mandou para a stylist da atriz Charlize Theron seis pares de brincos e trs braceletes cravejados de diamantes para que elas escolhessem que peas Charlize iria usar. Stylist  a pessoa que monta o visual completo das famosas. E, quanto mais fama tem a cliente, mais exigente a siylist. A de Charlize se chama Leslie Fremar. Foi ela quem pinou joias no valor de 4 milhes e meio de dlares para iluminar mais ainda o despojado modelo branco da atriz, cujo desenho decidiu "junto com a Dior", como disse, nada modestamente. Escolher uma roupa deslumbrante pode implicar dramas e traies  altura dos bons roteiros. Anne Hathaway mudou de figurino horas antes da premiao porque descobriu que o Valentino que usaria era muito parecido com o modelo de outra grife destinado  atriz Amanda Seyfried. Foi com um Prada da cor do momento  um suspiro de rosa , mas no avisou a tempo a equipe da Valentino, expondo a grife ao vexame de divulgar um comunicado  imprensa defasado. "Sinto muito se desapontei algum", disse ela no dia seguinte, fazendo o ar de boazinha que despeita os piores instintos dos trolls da internet. Depois do Oscar de 2011, Anne desmentiu que tivesse recebido 750.000 dlares para usar joias da Tiffany. Por incrvel coincidncia, o colar dela neste ano, tambm invertido, era da mesma grife.
     Os sofisticados produtos culturais tambm chamados vestidos de alta-costura usados no Oscar no so feitos para danar. Talvez nem mesmo para repartir espao com outras pessoas. A suntuosa criao de Oscar de Ia Renta, com seus babados infinitamente costurados na cauda mais longa entre todas as da noite, usada por Amy Adams, foi pisoteada e talvez at amaldioada em voz baixa por atrapalhar o caminho l dentro do Dolby Theatre. Mas, no tapete vermelho, assistentes de crachazinho no pescoo deixaram tudo perfeito. Assim como Amy, a atriz Jessica Chastain, de A Hora Mais Escura, no levou nenhum prmio, mas bem que merecia o de vestido mais insinuante. O bronze do Armam Prive foi ajustado pedraria por pedraria sobre a pele de leite derramado de Jessica  ah, se Bin Laden estivesse vivo para ver uma coisa dessas, talvez mudasse de lado.  Respirar tambm no parece ter sido a prioridade para a criao do barroco vestido do costureiro libans Zuhair Murad usado pela modelo gacha Alessandra Ambrsio na festa mais famosa depois da premiao. E, quando o mando ganha um Oscar de melhor filme  Bem Affleck, com Argo , vale pisar sobre ovos. E dentro de um Gucci com cauda em cascata, como a atriz Jennifer Garner. Em noite de Oscar, as famosas viram mesmo gueixas. 

STYLISTS DOS AIATOLS
A direita mais dura no gostou de ver a primeira-dama Michelle Obama se insinuar no Oscar, numa transmisso feita de Washington, e a esquerda mais pura achou que ela est exagerando no entusiasmo pelas roupas cheias de brilho (no caso, um vestido do indiano Naeem Khan). Mas a melhor crtica estilstica, e cinematogrfica, j que o filme premiado que ela apresentou  sobre o resgate secreto de diplomatas americanos acuados em Teer, foi a dos censores do regime iraniano. A agncia de notcias cobriu digitalmente os famosos braos e o decote insinuante de Michelle para no transgredir os padres de modstia exigidos pela liderana religiosa.

COM MARLIA LEONI


10. EDUCAO  DESVANTAGEM NA LARGADA
O novo plano do MEC para garantir alfabetizao a todas as crianas prev que elas cheguem l at os 8 anos  meta que nos coloca atrs das naes mais desenvolvidas.
NATHALIA BUTTI

     A educao brasileira atravessou os sculos numa zona de sombra em que no se sabia nem mesmo quantas escolas havia no pas  muito menos em que nvel elas estavam e aonde deveriam chegar. O vasto rol de termmetros e rankings do ensino tratou de sepultar esses tempos mais obscuros e abriu espao na sala de aula para um hbito ao qual o Brasil ainda no  to afeito: o de traar metas. Na semana passada, uma delas  da mais suma importncia  passou pelo crivo da Cmara dos Deputados e agora aguarda a apreciao do Senado. Trata-se da medida provisria federal que estabelece que toda criana seja alfabetizada at os 8 anos de idade  "prioridade das prioridades" para o ministro da Educao, Aloizio Mercadante. Com 1,4 milho de crianas entre 7 e 14 anos ainda iletradas no pas, no h dvida de que a iniciativa, indita, toca em um n que, se desatado, ter eleitos positivos de longussimo alcance. Mas tambm lana um ponto de interrogao sobre uma questo  qual pouco se atentou durante todo o debate  e  crucial: por que esperar de crianas de escolas pblicas que se alfabetizem at os 8 anos, quando nos colgios particulares, assim como em todo o mundo desenvolvido, elas chegam l, no mximo, aos 7?
     A diferena de expectativas tende a agravar o abismo que j separa a rede pblica da rede privada no Brasil, temem os especialistas ouvidos por VEJA. E essa discrepncia pode se fazer sentir no s no princpio, mas por todo o ciclo escolar. Um estudo do americano James Heckman, ganhador do Prmio Nobel de Economia, mostra que, quanto mais cedo a criana recebe estmulos cognitivos, menos tempo ela precisa para reter novos conhecimentos. Se j rene um repertrio razovel de palavras, suas chances de avanar no saber crescem exponencialmente. "Quem sabe mais aprende mais, num ciclo virtuoso que devemos estender a todos", resume Heckman. "Aceitar logo de sada que uma criana seja alfabetizada mais tarde do que outra aniquila a ideia de que a sala de aula deve gerar oportunidades iguais para todos. S agrava o apartheid educacional que j distancia alunos de escolas pblicas e privadas", enfatiza Claudia Costin, secretria municipal de Educao do Rio de Janeiro, onde pais e professores selaram um pacto comprometendo-se a fazer a sua parte para que todos saibam ler at o fim do 1 ano do ensino fundamental  em mdia, aos 6 anos.
     Vista como um todo, a medida provisria, que custar ao governo 2,7 bilhes de reais at 2014, ancora-se em pilares acertados: estabelece prazos, avalia resultados, premia os melhores. No pacote, est sendo formulado um currculo nacional que vai nortear as aulas do 1 ao 3 ano. A existncia de um bom roteiro para o professor ensinar  das iniciativas de maior resultado na sala de aula  mas, por um misto de inpcia de autoridades e resistncia de uma ala de educadores que se v tolhida em sua liberdade de ensinar,  ainda rara nas redes pblicas. Tambm se prev que os 360.000 professores alfabetizadores sejam remunerados para reforar seus estudos aos sbados e recebam livretes com estratgias para ensinar, rea que boa parte das faculdades de pedagogia apenas tangencia, ou ignora. O MEC aplicar ainda uma prova para aferir o nvel de conhecimento dos alunos ao final do 3 ano. E as escolas que se sarem melhor recebero um bnus. Os 26 estados e mais de 5000 municpios que at agora assinaram o chamado Pacto Nacional pela Alfabetizao tero direito a verbas.
     Em 2012, o MEC enviou ao Conselho Nacional de Educao o novo currculo para os primeiros anos do ensino fundamental. Seu contedo ainda no veio a pblico, mas especialistas que j se debruaram sobre o documento alertam para o fato de que lhe falta objetividade. " confuso e pouco assertivo quanto s exigncias", observa a especialista Ilona Becskehzy, que se deteve sobre currculos de pases como Portugal e Canad, segundo ela muito mais especficos em relao s expectativas de aprendizado. "Precisamos de uma vez por todas definir quais habilidades devem ser assimiladas, ano a ano", refora Maria Helena Guimares, presidente da Fundao Seade, em So Paulo. Ainda h tempo para lapidar o texto final. Vale o empenho. Hoje, apenas um de cada quatro brasileiros adultos  considerado plenamente alfabetizado  ou seja, consegue depreender sentido de um texto mais complexo. S com muita ambio acadmica ser possvel reverter cenrio to desolador. 


11. PERFIL  ELA  FOGO NA ROUPA
A delegada que inspirou a Hel de Salve Jorge cresceu nas areias de Ipanema, mochilou em Bali e se preparou para ser advogada, mas gosta mesmo  da vida de policial durona: "Detesto gente frouxa"
LESLIE LEITO

     O celular de Monique Vidal, titular da delegacia do Catete, no centro do Rio de Janeiro, soou bem no meio do almoo. Do outro lado do aparelho ouvia-se uma aflita Gloria Perez, autora da novela Salve Jorge, com uma dvida, digamos, de ordem tcnica. Queria saber como provocar a priso imediata de um personagem por um motivo simples. "Faa o sujeito quebrar um orelho que ele fica preso se no pagar fiana", orientou a delegada, que, ao desligar, comentou: "Mudei a novela!". E deu uma sonora gargalhada que ecoou por todo o restaurante. Com cabelos cobertos por tintura loirssima, bijuterias que resplandecem a distncia e uma inseparvel pistola calibre 40 na cintura, a delegada Monique Vidal no  apenas a consultora da trama das 9 para assuntos policiais. Dela veio a inspirao para a personagem Hel, interpretada por Giovanna Antonelli, que ganhou at mesmo o apelido pelo qual Monique  conhecida no meio: Delegata. Aos 44 anos e com quinze de polcia, ela acabou de assumir o comando da delegacia antes chefiada por um colega que desancou via Twitter as mulheres com quem trabalhava  desproprio que chamou a ateno at da imprensa internacional e custou a cabea do delegado. Como sempre faz, Monique Vidal entrou em cena batendo firme os saltos.
     Ela foi abrindo espao em um ambiente to predominantemente masculino  base de um currculo que alardeia a priso de alguns dos maiores traficantes da Zona Sul carioca, rea onde fez quase toda a carreira. Em sua primeira misso, j imprimia o estilo destemido e direto  frente da delegacia da Barra da Tijuca: Monique saiu  rua para perseguir garotos de classe mdia alta que naquele tempo promoviam arruaas na noite do Rio, depredando boates e ferindo pessoas. Virou a "caadora de pitboys ". Quando prendeu o mais eminente representante da turma, o lutador de jiu-jitsu Ryan Gracie, ostentava o barrigo de oito meses de gravidez de sua primeira filha, hoje com 15 anos, fruto de um romance com o ento delegado e futuro chefe de polcia do Rio lvaro Lins. "Fiquei com ele porque era o homem mais bonito da polcia", resume, mas para por a. A relao entre os dois  um assunto tabu. Corre no meio policial que, em meio a um acesso de fria, Monique teria arremessado contra Lins, um a um, todos os objetos que encontrou  sua frente. Nada ficou de p no gabinete do j chefe de polcia. "No comento isso", diz ela.
     Monique s se casou mesmo uma vez, com o lutador de vale-tudo Gustavo Ximu, a quem at hoje chama, entre amigos, de "my love". Ficaram juntos oito anos e tiveram um filho, hoje com 7. Quem tomou a dianteira na paquera? "Ela. Eu estava na rua com amigos em comum e Monique veio falar comigo", conta o lutador, para quem a ex-mulher  "amiga eterna". Hoje, "infelizmente", ela est solteira, mas "aberta". s vezes, deixa a clausura da delegacia para badalar em rodas as mais eclticas. Fica bem  vontade entre celebridades e polticos. No ano passado, Monique at se candidatou a vereadora pelo PSL (partido da base do prefeito Eduardo Paes). No se elegeu, mas tambm no passou recibo. "Gosto mesmo  de ser tira", fala. Nascida e criada nas areias de Ipanema, Monique foi educada em bons colgios, passou dois anos mochilando no circuito Califrnia-Hava-Bali e cursou direito em uma universidade particular antes de enveredar, meio por acaso, pela carreira de delegada. "Sempre gostei de filmes com policiais femininas como protagonistas. Minha 'dola' era a Jill do seriado As Panteras", lembra. Um dia, em uma banca de jornal, viu o anncio de um concurso para delegado e fez a prova. S foi passar numa segunda tentativa.
     Antes da estreia de Salve Jorge, a atriz Giovanna Antonelli fez uma imerso na delegacia de Monique. Alm da prpria Gloria Perez, uma de suas assessoras est sempre na linha com a delegada. O resultado na fico guarda familiaridade com a vida real nas dependncias do Catete. Como Monique, Hel tem uma equipe que a acompanha aonde for, cobre-se de enfeites vistosos e faz um bailado parecido com cabea e cabelos (que ambas, coincidncia do destino, tratam no mesmssimo salo). Tambm Hel j andou lanando objetos contra o ex-marido, com quem vive s turras. Mas Monique v um abismo entre as duas. A delegada da novela bem que poderia ser um pouco mais esperta. "Sei que ali  fico, mas s vezes ela  devagar demais para mim", dispara a Delegata. 
COM REPORTAGEM DE VANESSA CABRAL


